Arquivo de: 30.jan.2009


Hoje no tempo… (2014)


Talvez fosse a história dela que mais me surpreendia. Lembro-me de todas as palavras ditas com voz embargada, numa noite chuvosa de um verão distante. Para a minha surpresa, dias desses, ao sair de casa rumo ao trabalho, encontro-me casualmente com o pivô de todo aquele sofrimento anterior. Apesar de ainda ser jovem, ele aparentava mais do que sua pouca idade. Ainda tinha os traços perfeitos, lábios bem desenhados e cabelo viçoso, exatamente da forma que era descrito pelo seu antigo amor e a minha lembrança de um breve encontro com o casal.O rapaz andava com ar vago, como se quisesse encontrar uma resposta para algo. Estava sozinho, provavelmente vivia assim também, já que foi a sua opção para o resto da vida. O medo de sofrer por um amor verdadeiro tinha feito com que ele decidisse não se envolver com ninguém, principalmente com aquela menina apaixonada que deixara há pouco mais de cinco anos. A menina, no entanto, jamais teve medo de se entregar novamente, mesmo que aquilo significasse mais uma queda. Faziam um casal perfeito, se completavam em seus gostos, mas, mesmo assim, era melhor estarem separados. Naquele dia, ao me avistar na rua, ele baixou rapidamente a cabeça para não ter que me cumprimentar, certamente ele recordou do tempo em que éramos todos amigos e muito mais felizes. Hoje ela prepara suas bodas com um homem bom, que fazia tudo por ela, zelava por sua saúde, bem-estar, assim confiava à relação um clima de respeito e lealdade. Mesmo assim, às vezes, vinha aos pensamentos da jovem o seu grande amor do passado, aquele havia se tornado inesquecível, mesmo que agora fosse preciso lembrar-se apenas dos momentos ruins da sua existência.

¨¨

É só hoje e isso passa
Só me deixe aqui quieto
Isso passa
Amanhã é um outro dia
Não é?…

Eu nem sei porque
Me sinto assim
Vem de repente um anjo
Triste perto de mim…

E essa febre que não passa
E meu sorriso sem graça
Não me dê atenção
Mas obrigado
Por pensar em mim…

A Via Láctea
Legião Urbana

(Para se ler ao som de Você se parece com todo mundo – do Cazuza).

Amor, quando morre, deixa uma cicatriz feia na camada mais funda da parte da alma que fica sob a pele. Uma cicatriz feia, disforme – que às vezes dói ainda mais pelo fato de simplesmente não doer. Dói por não ser possível engolir de volta todo o sangue que dela um dia jorrou. Dói por estar ali, pela pele que nunca mais voltará a ter seu esplendor inocente. Um amor morto nos tira a ingenuidade e nos dá um ar blasé de quem já teve um amor e sabe como é. Um ar de quem sobreviveu não a um naufrágio, mas a uma doença grave e secreta que todo mundo já teve e não diz. Deixa na cara a vontade de esculpir no reflexo a força de continuar, não mais como continuar após o abismo do amor, ao abismo é fácil: todo mundo sobrevive. O difícil é sobreviver ao outro lado, depois do resgate, saudando todo dia no espelho aquela cicatriz de arrependimento.
Um amor quando morre deixa os pés fincados na terra de um jeito. Morre e deixa umas músicas arquivadas na HD, umas cartas rasgadas no lixo, outras queimadas no desespero da raiva e mais umas guardadinhas num canto do armário para serem vistas quando a cicatriz já não for a única e se puder lembrar das coisas com menos mágoa e mais nostalgia.
Um amor quando morre sem atestado de óbito deixa milhões de gritos, palavrões e batidas de porta presos na garganta. Deixa um arrependimento das coisas sem perdão. Deixa uma saudade da cama cheia. Da inocência de se dormir acreditando. Um amor quando morre cria insônia, aumenta o tamanho da cama, o tamanho do quarto, a intensidade da escuridão, até a noite fica mais longa.
Um amor quando morre faz descobrir o gostoso de dormir esparramada, sozinha. Faz descobrir o afago do fundo do copo. A beleza da iluminação disforme da madrugada. Da alegria decadente que as noites não dormidas na rua têm. Morre e um dia a vida ganha cores fortes como não se pensou quando as coisas eram o preto-no-branco de um amor.
Um amor quando morre deixa no rádio aquela música do Cazuza, você se parece com todo mundo… Um amor quando morre, mata. Abre ferida grave, sangra jorra, alaga a cama de saudade e lágrimas, dá ao travesseiro forma de corpo. O sangue um dia estanca. A lágrima seca. A ferida fecha, cria casca, vira cicatriz charmosa que a gente veste no rosto quando vira mais um sobrevivente na vida. Amor quando morre nos faz olhar o céu à noite e ver mais estrelas do que o céu poluído de um amor nos permitia.
Amor morre e deixa a vontade do café forte, do uísque amargo, da noite menos amena. Amor quando morre deixa mais funda é a vontade de amores, que nos amem, que nos matem. O amor não pode ser um*.

*Referência ao verso de Romã Neptune.

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